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domingo, 29 de mayo de 2022

PROFUSÃO DE "PODCASTS"

Na verdade, nem são podcasts a rigor. Mas os vários programas de entrevistas que se criaram no Youtube brasileiro assim são chamados.

Há duas coisas que se pode destacar deles: primeiro que esta disseminação não foi comum noutros países. Talvez tenha sido nos EUA. Mas se pegarmos, por exemplo, todo o resto da América Latina, com população superior à do Brasil, veremos que há poucos deles. Quiçá a característica dos brasileiros, um povo aberto a falar e se comunicar, seja algo que explique este fenômeno.

O segundo é que o que ocorre neles, as entrevistas, sempre foram raras na TV brasileira. E, portanto, talvez aqui se possa falar numa demanda reprimida da audiência. As TVs brasileiras, com a principal delas, a Globo, à cabeça, sempre foram muito medrosas e raramente estimularam o contraditório e a fala livre. Tudo é meticulosamente preparado para que nada saia fora do planejado. Pode ser que o medo radique em melindrar os anunciantes. De fato, pouca coisa é tão chata como a TV brasileira. Por isso, quem diz que é a melhor do mundo fala uma grande asneira. Já que o único em que se destaca é na forma. Não no conteúdo.

Costuma-se dizer que existe uma bolha de programas deste gênero. E que futuramente poucos restarão. Se isso é verdade, só o tempo dir-nos-á. Porém, o fato é que se tantos existem há já um razoável tempo significa que ao menos, por enquanto, estão tendo viabilidade econômica. E por viabilidade econômica pode-se entender audiência. Já que as empresas não anunciariam neles se não a tivessem.

miércoles, 25 de febrero de 2015

DA SEM-VERGONHICE

Poucos jornalistas brasileiros, ao menos dos que estão nas principais ligas do periodismo, trabalham tão em prol da promiscuidade entre informação e propaganda como Milton Neves.

Mesmo quem não se interesse pelo setor do jornalismo em que milita há décadas, o esportivo, deve já ter reparado na quantidade de publicidade que há em seus programas, tanto na rádio, como na TV. Concretamente em forma de merchandising, esta forma de publicidade não tradicional em que um jornalista fala de uma determinada marca ou empresa dentro do espaço do programa e fora do espaço de intervalo comercial.

Sem dúvida, Neves pode ser considerado como o rei de merchandising no Brasil. Um programa de humor até fez um personagem baseado nele chamado Merchan Neves.

Neves não tem nenhuma vergonha da dupla atuação, no campo da publicidade e do jornalismo. Muito pelo contrário. Neves é dono duma agência de publicidade. É por meio dela que capta os anúncios para o programa cuja marca é de sua propriedade, o Terceiro Tempo.

Se já é reprovável qualquer mínima publicidade que um jornalista faça, mesmo a que faça num anúncio publicitário fora dos programas em que labora, o que faz Neves pode ser catalogado no âmbito do ultraje. Infelizmente, Neves está longe de ser o único que mistura publicidade e jornalismo. A maioria das rádios e TVs do Brasil têm os chamados testemunhos. Ou seja, jornalistas que fazem o merchandising durante as emissões. Esta triste prática não é exclusividade do Brasil. Em toda América Latina ocorre a mesma coisa.

No Brasil, como no resto da região, são muito poucos os jornalistas que criticam isto. Em Terras de Vera Cruz, o único que predica contra a mistura de jornalismo e publicidade é o jornalista Juca Kfouri. Não por acaso, Neves tem em Kfouri um grande inimigo.

Acostumado a destilar promiscuidade a torto e a direito, Neves deve ter ficado muito surpreendido, quando, nesta terça-feira, na sua participação no programa matinal da Band News FM, apresentado pelo jornalista Ricardo Boechat, este repreendeu-o vivamente após Neves falar sobre um projeto esportivo do empresário João Paulo Diniz. Neves falava do projeto como se, de fato, estivesse fazendo um relato informativo, ultrapassando em desfaçatez os seus habituais merchandising. Boechat não deixou barato, interrompendo-o, e dizendo: “Milton, manda o Diniz botar um anúncio”.  Neves ainda tentou desconversar, dizendo que não era anúncio, mas Boechat não aceitou suas desculpas esfarrapadas.

Infelizmente, Boechat junto à coapresentadora do programa, Tatiana Vasconcelos, decidiram rapidamente cortar a discussão, que começava a pegar fogo (principalmente da parte de Boechat, pois Neves ficara muito acuado para fazer frente a ele) para falar de outro tema. 


Ainda que tenha durando apenas três quartos de minuto, a enquadrada de Boechat em Neves foi dos momentos mais épicos do jornalismo brasileiro nos últimos tempos. Uma aula de ética que deveria servir de lição a todos os jornalistas e aspirantes a sê-lo. Ademais, pela primeira vez sua sem-vergonhice ficara em evidência em plena prática desta.



martes, 5 de junio de 2012

TELEVANGELISTAS EM RISCO


Se for levado a cabo um novo marco regulatório para a radiodifusão no Brasil, tal como é, a princípio, a intenção do Governo Federal, algo de muito positivo ocorrerá na televisão brasileira, o fim de grande parte da avalanche de programas religiosos.

O novo marco regulatório para a radiodifusão prevê a proibição manifesta do aluguel de horários, prática adotada pela maioria das emissoras brasileiras. É por meio destes aluguéis que várias igrejas fazem suas emissões, sejam cultos realizados nos próprios templos sejam espaços de predicação feitos desde seus estúdios.

Com a interdição dos aluguéis, o vergonhoso proselitismo religioso nas TVs veria barrado seu caminho, não podendo mais aproveitar-se das brechas que o atual marco regulatório dá para que comprem espaços para seus programas.

É assustador ver a quantidade de horas que o proselitismo religioso tem na TV brasileira. A Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdomiro Santiago, por exemplo, tem dez horas de emissão diária da Rede TV!, quatro horas diárias na Band e nada menos do que 20 horas diárias no Canal 21, que tem seu sinal aberto em todo o Estado de São Paulo. A Igreja Internacional do Reino de Deus, do missionário R.R Soares tem duas horas de horário nobre na Band. Ja a Igreja Universal do Reino de Deus tem dez horas na TV Gazeta, além de preencher toda a madrugada de seu próprio canal, a Record (por ser dona dum canal, o espaço da IURD na Record, teoricamente, seria o único não afetado). E a Assembleia de Deus, do pastor e ‘militante’ homofóbico, Silas Malafaia, tem uma hora e meia semanal na Band.

Há muito que deveria ser feito quanto à regulação da TV no Brasil. Quase nenhuma das emissoras prestam o serviço público que estariam obrigadas a fazer, já que são concessões públicas. Que uma emissora como a Record, vinculada umbilicalmente com uma igreja, tenha concessão para funcionar, por exemplo, é algo inadmissível dentro do espírito laico do Estado brasileiro. Porém, o fim do horários de aluguel já seria um bom avanço.

Oxalá, o Governo Federal não ceda às pressões do lobby evangélico e da bancada de deputados evangélicos, que já começam, de pouco a pouco, a bradar contra esta proibição.


viernes, 19 de agosto de 2011

30 POUCO GLORIOSOS


O Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) está cumprindo seu trigésimo aniversário. Nascido, como grande parte dos canais abertos brasileiros, na época da última ditadura militar, o SBT pouco tem que orgulhar-se.

O canal do empresário e apresentador Silvio Santos quase sempre primou pela programação frívola, explorando o caminho mais imediatista possível para a obtenção de uma boa audiência e esnobando o que deveria ser a alma de uma televisão, o jornalismo.

Alguns programas da história do SBT ficaram gravados como verdadeiros monumentos à baixaria e ao mau-gosto televisivo.

Quem não se lembra do famigerado Aqui e Agora, o pioneiro em levar à telinha o espírito do “se espremer saí sangue” do extinto Notícias Popular.

O Programa do Ratinho, no qual o condutor, ainda em atividade na emissora, não poupava esforços para difundir a cizânia entre os seus participantes, promovendo o mundo-cão na sua mais alta esfera.

As emissões de Augusto Liberato, vulgo Gugu, que durante décadas esteve na linha de frente do canal, com programas nos quais não se envergonhava em fabricar mentiras para captar espectador. O maior exemplo foi quando, em 2003, ficcionou uma entrevista com membros do Primeiro Comando da Capital (PPC), em que estes ameaçavam de morte a jornalistas e políticos.

Gugu também usava e abusava de belos corpos femeninos em plena tarde de domingo, que resultavam em um quase porno-programa.

As noites do elitismo popular de Hebe Camargo, malufista de primeira hora, que nunca fez autocrítica por seu apoio a um dos mais corruptos políticos brasileiros, também foram uns dos principais carros chefes do canal.

As telenovelas mexicanas, em que o dramalhão era o mote principal.

Os próprios programas de Silvio Santos, nos quais o apresentador difundia e ainda difunde o amor na sua forma mais pueril ao dinheiro.

A própria estética da grade horário do canal é toda ela um desvario, com alterações de último momento.

Certamente o SBT não é exceção, e sim a regra da pobreza que é a televisão brasileira em termos de conteúdo. Os canais não têm qualquer compromisso com o contrato de serviço público que estão obrigados a cumprir. E o pior, as autoridades públicas nada dizem ao respeito.